Eu sei que eu sou difícil de amor aspas

É possível mesmo duas pessoas se relacionarem de forma PURAMENTE sincera?

2020.09.06 14:17 DemonFranco É possível mesmo duas pessoas se relacionarem de forma PURAMENTE sincera?

Até os 18 anos (hoje tenho 22) eu fui extremamente introvertido, com pouquíssimo contato com a realidade do mundo. Desde moleque desenvolvi uma vontade muito forte de ter aquele clássico relacionamento vitalício (não perfeito, mas no mínimo sincero e recíproco) que se vê em filmes de romance ou animes tipo Naruto. Na verdade, lá no fundo, ainda tenho essa vontade. Mas essa vontade foi minha perdição, pois dediquei demais à pessoas que não estavam dispostas a fazer 5% do que eu estava.
A primeira decepção foi com, claro, meu primeiro amor: nunca amei tanto alguém como amei aquela garota. Fiz de tudo pra me aproximar dela, fui até em sua casa pedi-la em namoro, e o pior é que ela aceitou sem me desejar. Passamos 2 anos nos "relacionando" sem um abraço sequer e com conversas vazias, até chegar o dia em que ela decidiu ser sincera (hoje eu vejo que tudo era bem óbvio, mas minha introversão tinha me tornado muito inocente). Logo depois arrumei uma webnamorada, com quem namorei por foto e vídeo até conseguir um emprego aos 19 e conseguir visitá-la: perdi 4 dias de trabalho sem atestado, quase fui demitido e viajei SOZINHO pra São Paulo mesmo sendo que não saía pra jogar bola na rua. Finalmente, então, perdi meu bv e minha virgindade. Apesar de que voltei pra casa feliz e realizado com a nova etapa do relacionamento, a mesma terminou comigo uma semana depois, com desprezo e raiva em suas palavras e até hoje não entendo porquê. Vida que segue, comecei a me socializar mais, ir em festas, conhecer novas pessoas, e na própria empresa em que eu trabalhava conheci uma garota que me admirava por minha espontaneidade. Ela também era muito introvertida, vem de uma família evangélica extremamente violenta e ríspida, então eu senti que poderia "salvá-la" mostrando os prazeres do mundo fora da caixa do preconceito. Sempre deixei claro a ela que gosto de tudo o que o cristianismo lhe ensinou a fugir: bruxaria, cannabis, liberdade de expressão, etc. Logo, desde o início estávamos cientes de que nada seria fácil, mas eu estava disposto a enfrentar tudo aquilo e muito mais, inocentemente acreditando que isso a inspiraria a fazer coisas parecidas por mim. Engoli muitos absurdos retrógrados vindo de sua família e fingi com todas as minhas forças ser alguém que não sou (algo que desprezo e talvez não tenha feito muito bem), resistindo por "Só mais alguns anos, e vamos sair daqui". Bom, acontece que todos os meus estímulos liberais incentivaram ela a descobrir que é lésbica - e por mim tudo bem, de verdade. O problema foi que ela omitiu isso até o último dia, fingindo estar tudo bem e ainda alimentando nossos projetos futuros. No dia do término, eu fui em sua casa porque ela estava estressada, na intenção de melhorar o mínimo que fosse do seu dia. Ela me deixou ir embora pra terminar por mensagem do Facebook de sua mãe; insisti pra ela pelo menos falar o que tinha pra falar me olhando nos olhos, mas ela me tratou como se fosse um qualquer e realmente não queria nunca mais me ver.
Até então essa é minha história amorosa, mas eu também contei demais com amizades e todas (exceto uma) me decepcionaram. Comecei minha vida social com dois de meus primos (um deles é a mencionada exceção), mas o outro simplesmente se afastou de nós sem razão aparente - isso foi frustrante pra mim porque eu gosto muito dele e de seu irmão, mas nunca foi recíproco. Depois disso conheci o cara mais problemático que já passou na minha vida: 100% egomaníaco, repleto de defeitos gritantes que qualquer um com um pouco de amor próprio não investiria sua saúde mental para suportar. Mas eu, trouxa, fui diferente. Aguentei todos os seus absurdos, surtos sem sentido, falso senso de superioridade, ego frágil e invejoso, ciúmes até da minha ex (sim, hoje eu sei que ele gostava de mim mais que como amigo), enquanto via seus outros conhecidos pouco a pouco se afastarem dele. Ele foi o primeiro """""bruxo"""""" (entre muitas aspas porque a prole só sabia o que tinha pesquisado no Google e lido em revistas de banca) que conheci e, como eu valorizo muito conhecimento esotérico e não sabia de nada quando o conheci, confiei em todas as suas palavras e atitudes. E continuaria assim, se ele não tivesse tentado me agarrar enquanto fingia estar incorporando minha deusa-mãe. Na cabeça dele era um pretexto perfeito, já que essa mesma deusa está relacionada ao sexo e eu sou bi. Mas, sério, nunca vi alguém com tanto sex appeal negativo quanto esse cara. Simplesmente parei de conversar com ele, não dei satisfação alguma porque ele sabe muito bem o que aconteceu. Mas seu ego frágil não deixou isso barato: hoje eu passo na rua e todos os amigos que tínhamos em comum nem me cumprimentam mais, e de longe olham torto ou fingem que não me viram. Coincidência? Acho que não. Agora, em tempos de quarentena que está ainda mais difícil conhecer pessoas novas e criar qualquer tipo de relacionamento (como se já não fosse um desafio pra alguém que cresceu introvertido), me sinto sozinho e essa infelizmente é a melhor opção pro momento. Mas eu não quero deixar minha vontade morrer: quero de verdade dividir uma vida com alguém, compartilhar histórias que só nós vivemos, entender o que ela pensa só de olhar nos olhos. Isso é utópico demais? Será que ainda tô vivendo nos meus 17 anos?
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2019.04.15 13:56 Alfre-douh Acordar

"8h30 de domingo" diz-me o ecrã de telemóvel, acrescentando ainda: "2 mensagens não lidas" com o símbolo da aplicação respetiva ao lado. "Chegou bem a casa..." penso. "Não me sinto bem..." porque é tão difícil para mim assumi-lo? Não sei... alguma vez saberei? Não me parece. Há qualquer coisa que me inibe de sentir o que sentia antes. Antes de tudo isto começar, eu era uma versão diferente de mim. Agora, por outro lado, a versão que sou não me favorece a auto-estima.
Levanto-me da cama, vou até à janela do quarto e espreito por entre os buraquinhos dos estores. Ninguém nas varandas, o meu carro continua no mesmo sítio, a claridade parece indicar que o dia vai ser bonito. Nada de especial. Por qualquer razão sinto-me um padre à procura de uma confissão da realidade lá fora. Por qualquer razão... Como seu eu não soubesse a razão...
Ponho-me a vaguear pela casa ensonado. Tenho apenas o cuidado de calçar uns chinelos. Os cabelos dela estão por todo o lado. À vista desarmada parecem fissuras curvilíneas no mosaico bege. "Fissuras curvilíneas, devia apontar esta". Ontem, de forma geral, foi bom. Ri-me, fiz uma piada ou outra de que me orgulhei (embora agora apenas me lembre da reação dela e não das piadas em si), abordamos assuntos ditos tabu, partilhamos pontos de vista...com humor, com uma dosesinha de afirmação pessoal e com temor de não cair em generalizações. Senti-me bem no momento, geralmente sinto-me sempre bem no momento, é na solidão que os fantasmas vêm falar comigo e me fazem as perguntas que eu não sei responder.
Eu tenho esta coisa, que no meu âmago acho muito profunda: se o momento estiver a ser bom devo relaxar nos pragmatismos mundanos. Daí que hoje, domingo, 8h30 e mais uns minutos, a constatação de que caixa do pão está vazia não me aflige particularmente, nem me constorna. A diretiva que assumi permite-me esse estado de desapego ao pequeno-almoço dominical. Respondo à caixa do pão (que entretanto me fez um pirete) com um cantarolar do refrão da Float On dos Modest Mouse. "Vai tudo correr bem, Caixa do Pão. Eu tenho milhares de músicas na cabeça para me embuir de um espírito positivo face à adversidade que é a falta de hidrato de carbono matinal...It will all float on alright". Fecho a caixa do pão e vou procurar o maço de cigarros. Ontem fumei muito, porque assim o momento exigiu. Conversas pedem pontuação: silêncios, parênteses de instrospeção, virgulas, piadolas em aspas, menos pontos finais e mais reticências, o cigarro ajuda-me nisso. Saber que vou andar cá menos tempo porque gosto de pontuar a vida desta forma é de uma indulgência que considero muito própria. Lembro-me da frase dos Smashing Pumkins: "...I'm in love with my sadness" e descontextualizando-a um pouco torno-a minha. Não é uma questão de amor platónico pela minha tristeza, mas sim um amor platónico por aquilo que me mata. Daí que, neste momento, nesta minha conversa interior, a frase em si não me diz nada, mas o amor platónico por algo que me retira vitalidade...sim.
Tiro um cigarro do maço, que acabei por encontrar no chão da sala. Enquanto procuro o isqueiro nos inumeros pares de calças que se encontram amontoados no quarto, coloco a Somewhere in Between dos Streetlight Manifesto a tocar no telemóvel. Encontro o isquero precisamente no momento em que o Tomas Kalnoky lá canta: "this is the alpha, the omega, the beginning and the end, and we all just idolize the dead". Não fico indiferente a isso, mas não me detenho e, colocando o telemóvel a tocar no bolso das calças de pijama, vou até à varanda e acendo o cigarro.
A varanda da minha casa está orientada a Sul, a Este a Arriba Fóssil forma uma parede geologicamente nobre e sábia que se prolonga a perder de vista, a Oeste a cidade tapa-me a vista para o mar intemporal. Imediatamente por baixo da minha varanda existe o jardim de infância e, mais à frente (com uma plantação de couves penca pelo meio), o cemitério. "The alpha and the omega" penso enquanto, debruçado sobre a guarda da varanda, vou fumando.
"Talvez sejam horas de lhe responder"
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